ENEM e concursos contra a tecnologia

08Nov

ENEM e concursos contra a tecnologia

Talvez a mais importante lição da sofisticada fraude descoberta pela Polícia Federal seja o que ela não destaca. A quadrilha só foi descoberta porque houve uma denúncia. Mas quantos outros casos podem ter havido sem que tenham sido descobertos? Se não houver alguém denunciando, sua descoberta é praticamente impossível.

Os equipamentos utilizados pelos fraudadores passaram pelos detectores de metais; os fiscais não foram capazes de perceber os pontos nos ouvidos dos candidatos que, de tão diminutos, só são retirados do canal auditivo com ajuda de um imã. A Polícia Federal só conseguiu grampear a conversa entre o membro da quadrilha e uma candidata porque feita por um canal comum de celular, não criptografado.

Comprar equipamentos indetectáveis para fraudar prova é hoje algo trivial. No eBay existe uma categoria inteira (http://www.ebay.com/bhp/cheat-exam) dedicada a isso, com fones invisíveis (os mesmos utilizados para este caso do ENEM) por cerca de US$ 8,00. Há até uma loja inteira dedicada a equipamentos para quem quer passar em concursos e exames sem muito esforço (aqui).

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A lista de itens praticamente indetectáveis é inesgotável. Já existe celular com conexão bluetooth, para ser utilizado com o fone acima, disfarçado de borracha ou de cartão de crédito, apenas para citar alguns exemplos.

A má-notícia imediata é: talvez essa fraude tenha ocorrido em muito maior escala do que o detectado pela Polícia Federal, neste ENEM de 2016 ou em outros passados, ou mesmo em provas de faculdades ou concursos públicos. Implementar sistemas de bloqueios de sinais ou métodos mais sofisticados para a identificação desses equipamentos é absolutamente inviável, tanto pelo aspecto técnico quanto pelo econômico.

Mas a pior notícia é que isso só vai se agravar nos próximos anos. O celular que hoje é disfarçado em cartão de crédito será, muito brevemente, não muito maior do que uma unha. Já há em testes modelos que são aplicados sob a pele, inicialmente desenvolvidos para rastreamento e monitoramento, mas que tornarão esse tipo de fraude ainda mais difícil de ser percebida.

Se há pessoas capazes de pagar R$ 180 mil reais para fraudar um exame como o ENEM, obviamente haverá também (se é que já não há) pessoas dispostas a ingerir ou realizar aplicações subcutâneas temporárias de equipamentos com a finalidade de trapacear em provas, exames e concursos.

A questão não é, portanto, se o modelo atual de provas e concursos vai perder a batalha contra a tecnologia. A questão é quando. Essa já seja uma guerra perdida. Precisamos entender que a tecnologia não é a vilã dessa história. Ela pode ser, de fato, a solução.

Mas para isso precisamos estar abertos a pensar em mudanças radicais nos grandes concursos e exames, e isso não é feito do dia para a noite. Mesmo provas orais e entrevistas, que por serem muito custosas ficam reservadas para as fases finais de concursos, não estarão a salvo do uso de tecnologia para a trapaça. E sua aplicação não pode demorar, ou em breve não mais poderemos acreditar nos exames e concursos como modelo de seleção.

Já há modelos em que esse tipo de fraude é mais difícil, como o TOEFL ou GMAT, que produzem provas diferentes para cada candidato. Essa pode ser uma solução temporária, mas mesmo esse modelo não estará a salvo por muito tempo das trapaças.

Uma possível saída é a avaliação constante de alunos e candidatos, como proposto pelo Geekie. Voltado prioritariamente para a customização do ensino de acordo com as dificuldades e facilidades de cada aluno, com o uso intensivo de tecnologia para avaliação individualizada, esse modelo poderia responder, de forma muito mais adequada, às necessidades de avaliação de candidatos. Não haveria mais concursos e provas, mas avaliações durante toda a vida estudantil, em aula, por softwares e algoritmos imparciais. Isso poderia compor um quadro muito mais confiável para seleção de candidatos em um futuro breve.

A tecnologia, que hoje pode ser considerada uma vilã jogando contra os candidatos honestos em concursos, pode, enfim, significar não apenas a salvação do modelo de seleção de candidatos como também torná-la muito mais justa.

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